Do sucesso
Antonio Jardim
Falar de sucesso, como de resto falar do que quer que seja, implica necessariamente retomar um sentido primordial da palavra, e tem essa implicação porque se assim não o fizermos cairemos numa perspectiva de costume. Ora, fazer um texto para cair numa perspectiva costumeira não faz sentido, talvez fosse melhor, simplesmente, dar como já sabido, já conhecido, já compreendido sem tomar o conjunto de peripécias que cercam a história de um termo e tentar entendê-lo de uma outra forma. Se fosse para fazer assim, isto é dar por sabido, diríamos simplesmente que sucesso diz daquilo que deu, dá ou dará um resultado, um bom resultado, ou mesmo um bom resultado; ou ainda, o que se concluiu, o que sucede, em princípio com felicidade. Falar mesmo de um artista ou uma obra artística de sucesso, quer dizer, em geral, que teve ou tem boa aceitação do público.
No entanto, sucesso não tem, na verdade, necessária relação com resultado, nem com conclusão, menos ainda com o que se conclui com êxito, nem com boa aceitação pública. Sucesso nada tem que ver com uma relação necessária com o que é público. Não é o simples resultado de uma realização qualquer boa ou ruim, não se articula numa dimensão adjetivante e ajuizante.
Sucesso é, de qualquer modo, mais ou menos que isso. É um substantivo, logo, em sua essência a palavra sucesso não diz de resultados advindos de fora dela mesma, não tem contraditório possível.
O termo diz, partindo-se de sua raiz latina, abertura, entrada, fenda, lugar que se abre, que se mostra como um acontecer, isto é, o que é digno de por seu próprio vigor de se tornar presente, de se des-velar, aquilo que se des-vela. Na palavra sucesso há inevitavelmente a presença de um movimento que se inicia com os prefixos sub e super, o primeiro indicando o sentido de baixo e, o segundo, de cima. O movimento substantivo do percurso do conjunto de experiências da palavra sucesso, portanto, diz de um movimento que é determinado pelo latim cedere, que diz acontecer. Sucesso é, desta forma, o conjunto de experiências a que todo acontecer está propício e é capaz de gerar, seja de baixo para cima seja de cima para baixo.
Sucede que o sucesso não diz de um momento e sim de um movimento e, assim, não está sujeito a leis estipuladas desde um outro paradigma que não seja o de seu próprio acontecer. Este acontecer se dá de cima para baixo ou de baixo para cima, necessariamente. Mas, o decisivo é o movimento que a palavra implica.
Hoje vivenciamos um outro tipo de experiência com esta palavra. Não a vemos mais como abertura para que o movimento possa se realizar, hoje ela é tratada como portadora de um único sentido demarcado pela noção de momento. Assistimos passivamente à queda de sua dimensão substantiva numa articulação meramente adjetiva, por exemplo, quando falamos do artista de sucesso, da peça ou da novela que está fazendo sucesso, significa o que ocupa lugar nas mídias hegemônicas e hegemonizadoras do que se entende mais precipitadamente como realidade. Assim, deixamos de perceber o que de essencial a palavra sucesso pode nos trazer enquanto dado constituidor da realidade, por um lado, a abertura e o movimento e por outro a necessidade uma outra questão fundamental, a relação entre obra e suporte. Sucesso é o que se dá num determinado momento e não por uma dinâmica da qual qualquer movimento é obrigatoriamente portador.
Ao desprezarmos o sentido mais originário da palavra, acreditamos que o seu sentido pode nos ser antecipado, ou melhor, antecipadamente pensado. O substantivo sucesso é assim, hoje prescrito para nós como o que o suporte, a mídia, pode constituir com ele, independentemente da obra que esta mesma mídia sub-porta. Sucesso deixa de ser, assim, percurso, para ser a finalidade funcional que algo pode ter ou não. Sucesso não é. Sucesso se tem ou não. E se tem ou não a partir de uma lei oculta que se conjuga desde fora do próprio conjunto de experiências que o conceito é capaz de fazer aparecer como a abertura para o que é digno de, por seu próprio vigor, tornar-se presente, emergente ou não, mas sempre digno de ser questionado, pensado.