O Motivo Todo Mundo já Conhece

Márcio Coelho


É muito difícil, senão impossível, estabelecer critérios para que se possa avaliar qualitativamente uma canção. Sei que, em princípio, esta afirmação pode parecer um contra-senso. Porém, procure, caro leitor, e não encontrará critérios cientificamente convincentes para afirmar que uma canção é ruim ou boa, a não ser o seu gosto particular.

Sei que imediatamente nos vem à mente: "os critérios poderiam ser uma boa harmonia, uma bela melodia, uma letra profunda, a não obviedade na informação etc.." Bem, e o que dizer das canções de dois acordes de Jorge Benjor? Do canto quase falado do Grupo Rumo? Das letras das canções que servem puramente ao delírio carnavalesco como "Mamãe Eu Quero" (por sinal, uma das canções brasileiras mais gravadas no mundo), que, justamente por sua simplicidade e objetividade, é deliciosa e eficaz? Das canções-crônicas, de Noel Rosa, sobre o cotidiano carioca?

Enfim, muito está por ser feito no sentido de estabelecer critérios para um juízo qualitativo de uma canção. Por enquanto, para o mercado, só está valendo o critério de vendas! Mas nós, ouvintes atentos, "intuitivamente" sabemos que canções desejamos para a formação cultural de nossos filhos.

Como citei acima, algumas canções são feitas para servirem ao delírio do reinado de Momo. Porém, não nos interessa que este reinado dure mais do que os dias a ele tradicionalmente reservados. Principalmente, quando em lugar de canções carnavalescas como "Dama das Camélias" (Braguinha e Alcir Pires Vermelho) e de "Joujoux e Balangandans" (Lamartine Babo), vemos surgir uma canção como "Xibom Bombom", travestida de canção de protesto.

A ecolálica e redundante letra desta canção tenta nos fazer acreditar que todo este comprometimento com o mercado pode ter lá seu cunho social, quando diz: "Analisando essa cadeia hereditária/quero me livrar dessa situação precária/ onde o rico cada vez fica mais rico/ e o pobre cada vez fica mais pobre". Mas, logo em seguida, aponta como motivo da situação precária, o mesmo efeito já citado. Ou "o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre" não quer dizer a mesma coisa que "o de cima sobe e o de baixo desce"? Enfim, pura tautologia.

E logo a canção chega ao que realmente interessa: o inexpressivo, mas vigoroso e entorpecente refrão "Bom xibom xibom bombom". Em seguida conclui: "porque eu só quero educar meus filhos/ tornar um cidadão com muita dignidade/ eu quero viver bem/ quero me alimentar/ com a grana que eu ganho/ não dá nem pra melar". Em princípio, penso que dignidade não seja quantificáfel, isto é, vive-se dignamente ou não. O resto é enriquecimento. E será que o mínimo de que o cidadão brasileiro necessita é "melar"?

Conclusão, um pretenso axé de protesto que não faz mais do que alimentar a situação precária em que vive a canção popular brasileira, onde o rico cada vez fica mais rico e o artista do Brasil real (como diria Ariano Suassuna) cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: "É que a usura dessa gente já virou um aleijão".