Nazismo Musical:

a morte da criatividade

Nando Araujo

A palavra nazismo, logo de início, traz à nossa mente a imagem dos campos de concentração, onde milhares de judeus foram cruelmente assassinados pela estupidez do Homem diante do seu semelhante. No entanto, independente da barbárie cometida para com eles, não podemos deixar de mencionar que estes também foram coadjuvantes das mazelas e das idiossincrasias humanas. De fato, houve uma tentativa de eliminá-los em detrimento da hegemonia de uma suposta raça superior, a ariana. A ideologia de limpeza étnica nazista foi liderada por um homem inteligente e excelente comunicador, conhecido com o nome Hitler. No entanto, por mais paradoxal que possa parecer, Hitler, além de ditador e totalitarista, exerceu atividades artísticas esboçando uma carreira nas artes pictórias; infelizmente, para a humanidade, ele não prosseguiu no seu desenvolvimento da linguagem artística, a sua libido foi canalizada para o ódio, para a intolerância e para a sedução do poder. Este fato é, no mínimo, intrigante, levando-nos a constatar que sensibilidade à arte, à prática artística, possuir a arte em potência; isto é, a pintura, a música, a escultura etc., não é o fator decisivo e diferencial das discussões engendradas desde a Antigüidade e principalmente a partir da Idade Média entre "animalidade" e "humanidade". Em nós pode habitar um Hitler, um Mussolini, bem como um Monet, um Velazques em perfeita harmonia, apenas esperando que, por algum motivo, um deles se faça presente em nossa personalidade .

Uma das estratégias do nazismo foi utilizar e controlar os meios massivos de comunicação, visando a doutrinação no plano das idéias, na tentativa de estabelecer o consenso da população diante da ideologia nazista. O artista e comunicador Hitler, em parceria com seus "assessores", foram hábeis "marketeiros" (tomando emprestando esse termo da modernidade ou, pós-modernidade, como atribuem alguns à nossa situação social atual), desse modo, os "marketeiros-artistas-ideólogos" nazistas estavam plenamente cônscios dessa ferramenta de manipulação social e a ideologia nazista, não somente matou seres humanos, mas, principalmente, aniquilou a possibilidade de vigência de pensamentos originais e transformadores da realidade social, na medida em que manipulou os meios de propagação das idéias.

Existem vários tipos de "morte" social, dentre elas, e talvez a pior, está a ausência de oportunidade e condições de uma existência digna para o desenvolvimento de todo o potencial criativo do cidadão, para que estes exerçam livremente o pensamento sem as objetivações inculcadas pelo sistema de comunicação, onde os detentores de tais meios, sem nenhum escrúpulo, forjam à sociedade os moldes que lhes convém, impondo necessidades, ideologias, modismos, consumo exagerado, alienação social e a prostituição disfarçada de entretenimento, sendo estas algumas das causas geradoras do embotamento dos sentidos, da linguagem, do pensamento e dos sentimentos.

Para determinados indivíduos a impossibilidade do indivíduo poder expressar-se através de uma linguagem que o satisfaça (seja ela a musical, a pictória, a literária etc.), que não esteja vinculada a algum mecanismo de controle utilizado pelos nazistas da comunicação é, em igual medida, um outro tipo de aniquilamento social. A morte não é somente física, corpórea, é, em igual medida, subjetiva, devido a estagnação das idéias, da energia que aos poucos esvai-se pela condensação, ou seja, petrificando-se pela impossibilidade de comunicação efetiva. É somente pela troca, pela dispersão e pelo dinamismo efetivado por um sistema de comunicação igualitário que a morte da subjetividade, da essência do homem, não será antecipada pela morte fisiológica, da carne.

A desigualdade das condições de comunicação, de gestação e de sobrevivência das idéias, incluindo-se aqui as idéias vinculadas à arte, levam, invariavelmente, ao aborto ou à sua morte prematura, sendo-lhe negada o direito de nascer e coexistir, com equanimidade, na diversidade das produções humanas, onde uma ínfima parcela dessa produção (idéias) usufruem da fruição necessária para o seu desenvolvimento.

Diante do sistema totalitário de comunicação, as regras já estão de antemão estabelecidas, onde qualquer idéia divergente à rígida proposta "midiática" está fadada à sucumbir, a sufocar-se pela "câmara da gás" dos sistemas de comunicação.

Reportando-nos à música, a produção musical autêntica como potencialmente emancipadora da "humanidade" do homem, deve coexistir com as outras produções artísticas industrialmente fabricadas, sem julgamentos estéticos a priorísticos pelos que elaboram e entendem a música em um processo manufatureiro (arte pela arte), bem como, pelos capitalistas musicais que a fabricam e a entendem como um produto industrializado em série (arte pelo dinheiro). A população deve receber ambas as formas artísticas, para que possa livremente realizar a sua escolha em uma dinâmica democrática para, posteriomente, aceitar ou não o que lhes é oferecido.

Podemos citar dois caminhos para uma possível transformação da realidade cotidiana, dentre tantos possíveis e inimagináveis. O primeiro deles e essencial é pelo desenvolvimento do pensamento coerente, crítico e ético, visando à praxis e, conseqüentemente, promovendo um salto qualitativo nos valores do senso comum, tornando as pessoas promotoras do seu bem-estar individual e social, ajudando-as a livrarem-se dos grilhões das necessidades impostas pelos nazi-comunicadores que incentivam o consumo alienado. Um outro caminho, não menos importante, é através da música, por ser ela uma linguagem possuidora de forte apelo emocional atuando em nossa mente de uma forma ainda não muito clara, mas, em hipótese, capaz de formar indivíduos conscientes ou alienados da realidade circundante. Este ato em potência dá-se tanto pelos conteúdos dos textos que acompanham a música, como pelas variações semânticas geradas pelas infinitas possibilidades de combinações de notas, ritmos, timbres, etc.. No entanto, o princípio emancipador e libertário do jugo da indústria cultural será efetivado principalmente pela praxis e pela responsabilidade do artista diante da sua condição de ídolo, assumindo, querendo ou não, uma postura de "Líder" na construção do pensamento e do comportamento dos indivíduos que, por sua vez, pautam as suas ações pela retóricas de seus ídolos.

Ambos caminhos tornam-se eficazes para o "renascimento" do conceito de "humanidade" que a nós é atribuído, mas para isso, faz-se necessário que a multiplicidade dos pensamentos e das linguagens artísticas (formas e conteúdos) sejam levadas, indistintamente, à população.


Este texto foi extraido do capítulo III do livro de Nando Araujo: "Quando as Musas Usam Máscaras: ídolos e ideologias em música.